Fui à cidade para assistir ao Festival Fora do Eixo, produzido pela Fósforo Cultural e a recém inaugurada A Construtora. Eu estava curiosa pra ver a reação do público à mistura de ritmos no lineup do festival, porque aqui em Brasília este é o tipo da coisa que na maioria das vezes não dá certo. É lindo pensar na interação entre os diferentes estilos de música, mas na prática, o brasiliense acaba rejeitando o evento ao invés de se juntar ao coro da mistura entre ritmos e tribos.
Ao chegar ao Martim Cererê, logo me chamou a atenção a grande quantidade de adolescentes. Isso é um bom indício, pois sinaliza uma renovação no público e também uma participação mais calorosa dos espectadores.
O Besouro do Rabo Branco sobe ao palco. Mesmo com o teatro ainda não tão cheio, Gabriel Costta o convenceu com sua performance nada convencional. Teve até quem o classificasse como "cafajestão", né Gabriel!!
Após um período do lado de fora, de repente escuto um som familiar, porém não esperado para um ouvido que esperava coisas parecidas com rock. Fomos lá ver o que era. E, para a minha mais agradável surpresa, era um grupo de ciranda! Isso mesmo! CIRANDA, MARACATU e afins. Eu fiquei embasbacada! Não só pela excelente qualidade musical do grupo, como também de ver que não parava de entrar gente no teatro e que os jovens roqueiros estavam TODOS se dando as mãos para se juntar à roda! Realmente uma cena quase que inacreditável para uma brasiliense. Aos Passarinhos do Cerrado, meus parabéns! O show de vocês foi lindo! Mas ao público de Goiânia, não só os parabéns, mas os mais sinceros aplausos para uma reação tão importante.
Mais um breve intervalo na área externa e algumas bandas depois, novamente um som diferente saindo do palco Pyguá: era a Banda UÓ, com seu contagiante eletrobrega. E se você pensou em Belém do Pará, errou de novo no estereótipo, pois o grupo é legitimamente goianiense. E incendiou o teatro. E botou todo mundo pra dançar. E mostrou que a música é muito maior do que qualquer preconceito que se possa ter. Irreverentes, sarcásticos e contagiantes, o quarteto realmente me impressiona. Merece todo sucesso do mundo! Teve gente que gostou tanto que já quer trazer pra tocar no DF. Então não se surpreenda quando ver um flyer por aí...
E pra fechar com chave de ouro a farofa musical do festival, a Mugo sobe ao palco. Mancando um pouco devido a uma fratura no pé do vocalista Pedro, mas com a mesma energia e agressividade de sempre! O Pyguá foi abaixo! E aí eu entendi o que sempre me diziam que era um show da Mugo em Goiânia: insano do início ao fim. Só reforçei ainda mais meu apreço por esses meninos que são um exemplo de profissionalismo e seriedade.
Aí você me pergunta: qual o segredo do sucesso de um festival que tem desde a batida regional dos Passarinhos do Cerrado até o grindcore do Mugo??
A resposta é bem simples e direta: FORMAÇÃO DE PÚBLICO.
Goiânia é uma cidade que conseguiu vencer a imagem de rural e interiorana mostrando que com um público minimamente educado, todo mundo tem seu lugar. Também não sou ingênua e nem hipócrita em pregar que todos devem gostar de tudo. Ninguém gosta de tudo. Muito menos eu. Mas o que todos podem sim fazer é ver as outras coisas com mais respeito e como parte da cena cultural da sua cidade tanto quanto aquilo que você gosta.
Não é por que você é roqueiro que não pode ver um show de eletrobrega - e achar massa. Você não vai deixar de ser roqueiro por isso. Você só vai conhecer algo novo e muito legal e aprender a dividir e não a disputar espaço.
E mesmo supondo que você realmente não queira de jeito nenhum conhecer outras coisas que não seja o bom e velho rock, é importante você saber que não precisa deixar de ir a um evento só porque vai ter maracatu lá. Você pode ir ao festival e tomar uma cerveja enquanto espera a sua banda preferida da noite.
Isso se conquista com formação de público.
E é isso que Goiânia, aquela cidadezinha agropecuária, tem a ensinar a Brasília, a capital (pseudo) cosmopolita, (pseudo) moderna e (pseudo) vanguardista.

